Sindusfarma e RAPS Brasil: o futuro do profissional de Assuntos Regulatórios

O encontro sobre o futuro do profissional de Assuntos Regulatórios foi promovido pelo Sindusfarma e pela RAPS Brasil em 1º de outubro de 2026, e foi uma excelente oportunidade de reflexão sobre as carreiras regulatórias na indústria farmacêutica. Em uma manhã intensa, lideranças da indústria farmacêutica e de dispositivos médicos, além de diretores da Anvisa compartilharam trajetórias, aprendizados e visões sobre os rumos da profissão. A sensação transmitida nas palestras é de que estamos vivendo um ponto de virada, e que ele exige desses profissionais uma postura muito mais ativa do que a que a área tradicionalmente teve.

Um encontro construído a partir de trajetórias

A programação seguiu uma linha muito bem pensada: partiu de uma visão ampla sobre a evolução do papel de Assuntos Regulatórios e sobre o profissional do futuro, passou pela diversidade de papéis que o regulatório pode assumir, mergulhou na gestão da mudança e terminou com a perspectiva da autoridade sanitária.

Marcos Paulo Moreira, Líder Regional de Assuntos Regulatórios para a América Latina na MSD, falou sobre o futuro do profissional de regulatórios e sua própria carreira, que passou por áreas como produção, qualidade, política regulatória, recursos humanos e uma integração entre empresas antes de chegar à liderança regional, o que já é por si só um retrato de como a formação ampla enriquece a atuação regulatória.

Patrícia Gomes Silva, Gerente de Assuntos Regulatórios da Johnson & Johnson MedTech, abordou o tema partindo de uma visão técnica que evoluiu ao longo dos anos e chegou às camadas estratégicas nas empresas, passando pelas várias faces dos profissionais de Assuntos Regulatórios, com a bagagem de quase duas décadas no universo de dispositivos médicos e forte atuação junto a autoridades e associações do setor.

Beatriz Fernandes, Diretora Global de Gestão de Mudanças e Comunicação em Assuntos Regulatórios na AbbVie, apresentou sua perspectiva sobre a Gestão de Mudanças, considerando um futuro que promete muitas mudanças. Farmacêutica e psicóloga, com mais de 30 anos de setor, ela trouxe uma abordagem profundamente humana sobre como atravessar transformações.

Por fim, Daniela Marreco, Diretora da Segunda Diretoria da Anvisa, e Marcelo Moreira, Diretor Substituto da Terceira Diretoria, compartilharam um pouco sobre suas trajetórias profissionais e a visão da autoridade sobre o novo profissional de regulatórios.

A mudança é a única constante

Todas as falas, de alguma forma, retornaram a esse ponto. A profissão regulatória se desenvolveu em meio a transformações profundas: avanços tecnológicos, novos modelos de trabalho e uma regulamentação extremamente dinâmica, que exige atualização contínua. E nada indica que esse ritmo vá diminuir. Pelo contrário, o futuro promete ainda mais avanços, sobretudo no campo da tecnologia.

Esse cenário foi apresentado não como uma ameaça, mas como a própria natureza da profissão. Quem escolhe atuar em Assuntos Regulatórios escolhe, de certa forma, conviver com a mudança permanente. A questão não é se as coisas vão mudar, e sim como os profissionais estão se preparando para liderar essas mudanças em vez de apenas reagir a elas.

De “juntador de papéis” a cientista regulatório

A reflexão mais forte do dia foi sobre a evolução da identidade desse profissional. Durante muito tempo, o profissional de regulatórios foi visto, e em muitos casos atuou, como um “juntador de papéis”: alguém responsável por reunir documentos, montar dossiês e protocolar processos, sem grande espaço para análise.

Esse perfil ficou para trás. Hoje falamos em ciência regulatória, uma disciplina que exige rigor científico, análise crítica da documentação e capacidade de interpretar dados à luz de novas exigências técnicas e do contexto regulatório. O profissional deixou de ser um executor de tarefas para se tornar alguém que avalia, questiona, recomenda e influencia.

Essa mudança de natureza veio acompanhada de uma mudança de posição. O regulatório passou a ser uma área estratégica, que se senta à mesa do board e participa de decisões de negócio. Nesse sentido, a estratégia regulatória pode definir o tempo de chegada de um produto ao mercado e a viabilidade de lançamentos.

As competências que vão definir o profissional do futuro

Ao longo das apresentações, foi se desenhando um conjunto de competências que podem formar o perfil do profissional regulatório dos próximos anos.

  • Análise de dados e inteligência artificial. A tecnologia já está transformando a forma de trabalho, e a tendência é que ferramentas de automação e IA assumam uma parte crescente das atividades operacionais. Mas houve um ponto de consenso essencial: a IA pode acelerar, organizar e sugerir, mas a última versão, aquela que assume o compromisso junto à empresa e à autoridade, é humana. É necessário dominar as ferramentas sem terceirizar a elas o nosso julgamento crítico.

  • Visão estratégica e participação precoce. O regulatório não pode mais ser chamado apenas no fim do processo, quando o produto já está pronto para o pedido de registro. O valor da área deve aparecer desde as fases iniciais do desenvolvimento, ajudando a construir a estratégia regulatória junto com o próprio produto, antecipando riscos, identificando caminhos mais eficientes e evitando exigências e retrabalho. Além disso, o profissional deve saber distinguir o que é inegociável e não admite flexibilização, e é seu dever defendê-lo com firmeza; mas há também espaço para propor alternativas e construir soluções que conciliem conformidade e objetivos de negócio.

  • Conhecimento técnico com comunicação acessível. É necessário traduzir o conhecimento para quem não é da área: pesquisa, marketing, qualidade, jurídico, alta liderança e autoridades, muitas vezes em contextos internacionais, combinando profundidade técnica com comunicação clara e intercultural.

  • Agilidade para aprender. Em um ambiente em que normas, tecnologias e modelos de trabalho mudam o tempo todo, a capacidade de aprender rápido, e de desaprender quando necessário, talvez seja a competência que sustenta todas as outras.

Indústria e autoridade na mesma conversa

Um aspecto que tornou o encontro especial foi o clima. O ambiente foi superdescontraído, e os palestrantes, inclusive os representantes da Anvisa, estavam bem à vontade para falar de suas experiências e trajetórias. Ver diretores da autoridade sanitária compartilhando suas visões com essa abertura reforça algo fundamental para o futuro da área: a construção de um ambiente regulatório mais colaborativo, baseado em diálogo, transparência e confiança mútua entre empresas, autoridades e profissionais.

O auditório lotado também diz muito. Mostra que a comunidade regulatória está mobilizada, interessada em discutir seu próprio futuro e disposta a se preparar para ele.

O momento se mostra muito interessante para ser profissional de Assuntos Regulatórios, com o ganho de relevância, protagonismo e complexidade da área e, ao mesmo tempo, com o aumento da responsabilidade.

Não basta acompanhar as mudanças: é preciso desenvolver as competências que permitem conduzi-las. A tecnologia vai continuar avançando; as regulamentações, evoluindo; e os desafios, se renovando. O que diferenciará o profissional do futuro será a capacidade de unir rigor científico, visão estratégica, sensibilidade humana e disposição para aprender sempre.

Parabéns ao Sindusfarma, à RAPS Brasil e a todos os palestrantes por proporcionarem uma manhã tão rica em conteúdo e troca de experiências.


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